sábado, 30 de Agosto de 2014

Guardei as sementes...


A Dona Aida contou-nos, e até exemplificou, como todas as manhãs conversa com o manjerico que tem na janela. Juro que os seus olhos claros mas, baços por causa das cataratas brilharam quando se citava a si mesma repetindo ‘bom dia, meu rico manjerico’. Ela agradece-lhe a companhia e o manjerico agradece-lhe o carinho mantendo-se vivo e viçoso.
O Sr. Raul, o outro beneficiário, de 94 anos agradeceu, mais uma vez, os livros que lhe dei e contou que tinha gostado muito, principalmente do ‘Cavaleiro da Dinamarca’ que diz ser de ‘grande beleza literária’. Disse-o antes de nos acompanhar à porta, onde se despediu com um beijo na mão. É o único homem que me beija a mão!
A M. do Carmo, colega de voluntariado, ofereceu-me um vaso de incenso. Quando atravessava a ponte, no regresso a casa, observei o reflexo do sol na água do rio. Não sei se o compreendi muito bem mas, gostei muito de o ler.
Amanhã, não me posso esquecer de falar ao incenso…








quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Juntos para sempre


A Dona Graça faleceu com um ataque de coração fulminante ao aproximar-se da urna do marido cujo funeral se realizava nesse dia.
A localidade ficou em choque com tão inesperado desfecho.
O coração da Dona Graça contrariou a promessa que ela tinha realizado ao marido, no altar. A promessa de permanecerem juntos todos os dias da sua vida. Quis que continuassem juntos apesar da morte.

Há dias em que a vida é como nos filmes.







quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

Banhos Públicos


Incrível! O que esta gente tem angariado ....

Cavaco

Soares

Passos

Sócrates 

Assunção



Les choses de la vie....





Les choses de la vie - filme realizado por Claude Sautet em 1969, baseado no romance de Paul Guimard com Michel Piccoli, Romy Schneider e música de Philippe Sarde...


segunda-feira, 11 de Agosto de 2014

E do pouco fazer muito


Costumávamos ter galinhas lá em casa. A minha mãe desistiu da produção caseira quando, misteriosamente, as galinhas começaram a aparecer mortas na capoeira.
As galinhas da minha mãe eram boas poedeiras. Os ovos eram tantos que tínhamos sempre cestas cheias de ovos na cozinha.
No Verão, quando chegávamos de brincar no rio, comíamos gemadas com muito açúcar.
Sei alguma coisa sobre galinhas e capoeiras.
Sei que temos que lhes dar casca de ovo para que não comam os próprios ovos, sei que dormem com uma pata no ar, sei que o ‘cócórócócó’ se traduz por ‘quem cagou aqui’ disse-me a Inesinha, a velhinha que morava na casa em frente e ela era sábia. Para além disso, graças às minhas insónias, compreendo muito bem não só a hierarquia da capoeira mas também a hierarquia entre capoeiras vizinhas. Sei que parece estranho mas, a verdade é que os galos de capoeiras vizinhas se respeitam com base no princípio da antiguidade.
Como não conseguia adormecer cedo, ouvia todos os ruídos que o silêncio da noite amplificava.
O galo da nossa capoeira era o primeiro a cantar, depois cantava o da outra margem do rio, depois dele o da casa dos lavradores mais acima e, depois desse, outro cuja localização não sei especificar mas, era sempre o mesmo galo.
Certo dia comeu-se cabidela lá em casa e nessa noite o primeiro galo a cantar foi o da outra margem, depois o dos lavradores mais acima e depois…
Lembrei-me disto porque mesmo morando quase no centro de Coimbra, em noites de insónia, ouço um galo.
Durante o Estado Novo foram realizadas diversas campanhas que visavam o aumento da produção de bens agropecuários. Uma delas era precisamente sobre capoeiras. Naquele tempo eram frequentes as capoeiras nas varandas, sótãos ou águas-furtadas. Não pela campanha mas, porque a necessidade aguçava o engenho de quem não tinha um pedaço de terra.  

Acho que podemos estar a recuar a tempos semelhantes e eu, apesar de todo o meu conhecimento sobre galinhas e capoeiras começo a questionar-me, será que numa pequena gaiola a galinha continua a pôr ovos?


sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Tétisq também vai de férias


Machu Picchu

Eventualmente... Um dia a Tétisq vai de férias. 

Por hora, esfalfa-se a trabalhar para gente que a obrigou a assinar um papelinho onde se comprometia a fazer horas extraordinárias todos os dias - há 2 meses, como se não bastassem os turnos, as folgas rotativas e separadas, os horários semanais que só se conhecem ao domingo... 
Não! Não digam que é uma sorte ter trabalho! Ninguém merece trabalhar tanto para ganhar tão pouco. É essa corrente de pensamento que me leva a dignidade! 
E, não! Não me venham com discursos tipo life coaching: Muda! Luta por mais!  
Isso não é assim! Garanto eu que sei do que falo e tenho que pagar o arranjo do esquentador esta semana. 
Enfim, o que me vale é saber que um dia, um dia eu vou de férias!





terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Por vezes, é preciso ser uma Andorra. Tomar posição...



Andorra declarou guerra à Alemanha, no decorrer da Primeira Guerra Mundial. O seu exército contava apenas com 10 homens mas, nem por isso deixou de assumir uma posição beligerante. 
É verdade que permaneceu, oficialmente, em guerra com a Alemanha até ao inicio da Segunda Guerra Mundial (prolongando o conflito, no papel) porque ninguém se lembrou da sua existência ou reconheceu autonomia, aquando da Conferencia de Paris e assinatura do Tratado de Versalhes. Mas, tomou uma posição…